Entrevista com Letras Garrafais

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Poesia urbana. Coisa linda demais o trabalho e a conversa com o criador do Letras Garrafais:

Como nasceu a ideia do Letras Garrafais?
Quando o Letras Garrafais não era sequer uma ideia, eu tive umas experiências bem legais. A primeira garrafa eu fiz para a minha esposa. Ela adorou (rs). Depois eu fiz umas 30 garrafas para presentear os colegas de trabalho, no Natal de 2014. Todos curtiram. Diante disso, ampliar este trabalho começou a fazer sentido pra mim. Eu sempre fui admirador das ações urbanas e das intervenções artísticas, talvez pela minha formação profissional. Também sempre gostei de escrever, apesar de não ter a mínima pretensão de ser um poeta, quero apenas me expressar livremente e a escrita me permite isso. Por outro lado, sempre gostei de escrever e também tinha um desejo de colocar em prática um projeto de gentileza urbana. Ai juntei meus textos, um pouco de arte, as garrafas e usei a cidade como cenário do meu trabalho. Podemos dizer que o que eu faço é poesia urbana. E assim surgiu o Letras Garrafais, cuja melhor definição (pra mim) é a frase que tem da bio: Gentileza urbana feita com frases que saíram do papel e garrafas que não foram para o lixo.

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Quem está por trás do projeto? Quem escreve as mensagens?
Por enquanto somente eu. As frases são todas de minha autoria. Como eu disse, o Letras é um meio pelo qual eu me expresso livremente, sem compromisso com técnica ou estilo literário. Sem filtros ou medo de críticas. Todos os trabalhos são um pouco de mim, não me preocupo com as reações. Também não escrevo frases de nenhum autor e também não faço por encomendas. O propósito do Letras Garrafais é a gentileza urbana, eu ainda não encontrei um meio de conciliar uma atividade comercial com o projeto.

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Como é feita a arte nas garrafas?
Eu escrevo diretamente nas garrafas, com canetas spray, tipo Posca. Mas as que eu uso são com tinta a base de óleo, para resistirem à agua. Engraçado que muita gente me pergunta onde encontrar ou quanto custam os adesivos rs Mas antes da escrita tem um trabalho grande, que é recolher as garrafas, retirar os rótulos e lavar. Eu não uso garrafas novas, todas são reutilizadas de consumo próprio, doações e coleta que eu faço nas ruas por onde passo.

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Como você percebe a relação desse trabalho com o público?
Eu nunca me preocupei com isso, até hoje deixo a garrafa e não espero para ver quem vai pegar. Sempre me bastou a imaginação de que quem achasse ia ficar feliz com isso. Desde o começo só fazia sentido o projeto existir se eu pudesse impactar positivamente as pessoas, nem que fosse somente uma. Tanto que a primeira garrafa achada nem tinha sido publicada no perfil do Letras e a pessoa fez um comentário no meu instagram pessoal, dizendo “mudou o meu dia”. Ai eu pensei, será que é pra tanto? Mas confesso, o resultado foi muito maior que as minhas expectativas. O perfil no insta não é fundamental para que o projeto aconteça. O Letras Garrafais acontece com a união de 3 fatores: a minha arte, a cidade como cenário e a pessoa que encontra a garrafa. Porém, o instagram me ajudou a amplificar esta mensagem e, de alguma forma, ter um retorno da ação. E é muito legal saber que um gesto tão simples fez alguém mais feliz, ou ainda que mobiliza pessoas a sairem correndo de suas casas para tentar achar a garrafa depois que eu posto. Sem contar que o projeto também tem a admiração de gente fera, da arte, da literatura e do lettering. Para mim é uma honra e satisfação pessoal enorme.

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O que é gentileza?
Caramba, essa é difícil! Depois de tanto tempo pensando sobre isso, eu cheguei a conclusão que não dá pra definir em uma só frase. Então eu gosto de dizer que gentileza é o comportamento natural de quem se preocupa com o que está ao seu redor. E ai vale tudo. Temos que ser gentis com pessoas e coisas e cuidar bem delas. Eu criei um termo para o Letras Garrafais que virou uma hashtag dos posts: gentileza sustentável. Talvez num primeiro momento não seja muito claro mas para mim tem um enorme siginificado. A gentileza tem várias formas, envolve educação, respeito, cuidado, solidariedade e por ai vai. Mas não pode ser momentânea. Pra valer, tem que ser pra sempre, não dá pra dizer “hoje não tô a fim”. Precisamos nos habituar a ser gentis e sustentar essa gentileza em todos os nossos atos. Vou dar um exemplo: Se você vai ao teatro e desliga o celular por causa do aviso, está sendo educado. Mas se desliga porque se preocupa com o momento e respeita as pessoas que estão ali, está sendo gentil com o artista, com a platéia, com sua companhia e com você, que vai aproveitar melhor o espetáculo. Não é simples e mais prazeroso?

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Qual seu desejo com esse trabalho?
Acho que os objetivos iniciais foram alcançados. O projeto impacta positivamente as pessoas e é gentil comigo também, porque me permite exercitar a criatividade, interferir no meio urbano e me ensina diariamente a praticar o desapego. Afinal, cada garrafa é uma arte que eu deixo na rua sem a certeza de que alguém vai achar. Então, agora eu penso que se o projeto puder inspirar outras pessoas a praticarem a gentileza, da forma que escolherem e com a grandeza que puderem, tá valendo. Isso já começou a acontecer e eu fico muito feliz e agradecido.

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“Gentileza feita com frases que saíram do papel e com garrafas que não foram para o lixo.” <3

Acompanhe: instagram.com/letrasgarrafais

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Mariana Pinheiro

O desenho e as artes visuais sempre foram minha maior fonte de inspiração e de expressão.
Designer e tattoo artist carioca.
Criadora e curadora da indie.